Três lagartixas, uma folha seca e um gato

José Roberto Limas da Silva
Júlia Pires Limas

Andando nesta manhã por ruas desertas, lotes vagos e margeando um parque florestal, consegui obter algumas impressões nada casuais. Caminhando à beira do parque, não podia imaginar que tinha companhia tão absorvida na contemplação dos meus passos. Sim. Três lagartixas com suas cabecinhas projetadas para frente numa lajota. Olhei para elas e elas firmaram seu olhar. Não balançaram a cabeça como se me reprovassem, nem fugiram de mim como seu eu fosse um exator. Gostei de conhecê-las, mas precisava continuar minha marcha.

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Deparei-me com uma cerca de arames lisos e, por entre seus fios, percebi um pouso elegante e cadenciado pelo vento: uma folha seca que se desgrudou da copa de sua mãe-árvore desceu dançando suavemente até tocar o chão. Não reclamou do seu desligamento, nem da triste hora da separação. Não se permitia mais ser uma folha a decorar a copa de sua amada casa. Seria, a partir de agora, o adubo a nutrir a árvore que tanto a sustentara. Percebi que aquela folha seca nem se deu conta da minha presença. Seu curso, seu ciclo seguiam silenciosamente, pois ela não fazia questão de publicidade.

Foi quando percebi gravetos estalando no chão. E quem eu vejo? Um gato deslizando sorrateiramente pelo chão, com pose de felino predador em busca de sua presa. Suas patas mal tocavam o chão. Logo pensei: pobre da vítima que será atacada sem dó nem piedade! Mas que nada. O bichano só estava encenando, não havia nada. Era apenas uma dramatização, talvez saudades do tempo em que ele era um gato selvagem do mato. Quando o felino pôs os olhos em mim, foi se desfazendo, lentamente, a sua “atitude hostil”, saindo de fininho, como se estivesse surpreendido num deslize moral – será que gato tem ética?

Depois de observar todas essas cenas, extraordinariamente comuns, pensei que elas tinham algo para me ensinar nesta manhã de segunda-feira. Lembrei-me da atitude contemplativa das lagartixas e descobri a necessidade de ter um tempo somente para observar a vida, sem julgar, sem tentar encaixar os fatos nos meus modelos existenciais. Simplesmente ver a vida passar. Acho que preciso olhar para as pessoas como as lagartixas olharam: sem meneios de cabeça e sem juízos prontos.

Não poderia me esquecer, também, daquela discreta folha seca. Sua singeleza em enfrentar situações conflituosas – o desligamento da árvore foi doloroso -, continuar a caminhada sem ressentimentos, sem atribuição de culpas, aceitando o curso proposto pela criação de Deus. Folha sábia foi a que vi nesta manhã.

Por fim, o meu amigo bichano me deu uma aula de dissimulação, fingimento e hipocrisia. Quanto tempo desperdiçamos a representar um papel que não corresponde ao nosso verdadeiro ser? Encenamos mais do que vivemos. Como o gato domesticado, perdemos nossa habilidade de viver nossa própria realidade existencial, vendendo nossa liberdade por um prato de comida. Não temos mais habilidade para caçar (buscar) e encontrar aquilo que, de fato, tem valor para nós. Como observou Durkheim: “a consciência coletiva acaba por determinar nossa conduta individual”. E isso não é muito diferente do comportamento do bichano, “socialmente” domado.

É isso aí, minha gente. A segunda precisa prosseguir, mas agradeço a Deus por me permitir enxergar algumas coisas nesta manhã, que poderão tornar a jornada mais suave. Abraço! Deus os abençoe