Religião e esfera pública: as dimensões da nossa religiosidade

Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra (Gênesis 12. 1- 4).

O ponto de partida para compreendermos o lugar da religião na sociedade é reconhecermos que a religiosidade não é um fenômeno separado da vida. O sociólogo Émile Durkheim tem essa mesma compreensão radical quando afirma que “se a religião gerou tudo o que existe de essencial na sociedade, é porque a ideia de sociedade é a alma da religião”. Assim, também, entendemos que a religião está presente em diversas dimensões da nossa existência e por isso precisa ser cuidadosamente interpretada em cada um desses ambientes. Confundir essas dimensões poderá nos transformar em cristãos secularizados ou cristãos fundamentalistas e intolerantes, ou seja, qualquer um dos dois polos é perigoso para a religião cristã.

Bocaiuvaonline

A discussão sobre o lugar da religião na sociedade é um tema que interessa primeiramente a nós (como instrumentos de Deus para abençoar a as famílias), mas temos percebido que “o tema das relações entre estado e religião voltou a ser, na virada do milênio, um assunto de relevância nas discussões políticas e filosóficas, tanto em função das novas questões ligadas ao multiculturalismo, como também as discussões acerca da esfera pública no contexto democrático” (ZABATIERO, 2012).

Sendo assim, convém, inicialmente, estabelecermos definições claras sobre o que é religião e o que é esfera pública. Segundo Durkheim, religião é um “sistema unificado de crenças e práticas ligadas ao sagrado que congrega as pessoas que as seguem em uma comunidade”. Dessa forma, a religião é composta por indivíduos que manifestam alguma forma de crença no Transcendente/Sagrado (deus, deuses ou deusas) e que possuem um sistema de doutrinas e valores que é aceito e praticado por essa comunidade. No caso da religião cristã, trata-se da crença num Deus eterno e pessoal, que é criador, sustentador e salvador da humanidade. Nesse primeiro momento, enquanto cristãos, temos que entender que a definição de religião para a sociedade não é necessariamente a mesma da Bíblia cristã, sobretudo porque estamos num ambiente em que todos os segmentos religiosos precisam ser respeitados.

Pensando agora na definição de esfera pública, podemos afirmar que ela é o espaço intermediário entre o poder estatal e o cidadão comum, ou seja, é uma espacialidade neutra, onde os assuntos ligados aos interesses do Estado e da sociedade são tematizados e discutidos fora da estrutura política estatal. Segundo Giddens, esfera pública é uma “arena da discussão e do debate público nas sociedades modernas, podendo ser espaços formais e informais”. Para Habermas, essa arena é o espaço “em que os assuntos de interesse geral podem ser discutidos e as opiniões podem ser formadas, o que é necessário para a efetiva participação democrática e para o processo democrático”. Sendo assim, esfera pública é o lugar onde o cidadão é ouvido, incluído e considerado nas suas ideias.

Feitas essas considerações iniciais, deixando bem claro que são definições técnicas e não pressupostos doutrinários, precisamos entender que a presença da igreja na esfera pública passa primeiramente pelo reconhecimento do ambiente em que ela (religião) está pisando, que não é o solo sagrado da vida congregacional, mas uma espacialidade laica, onde estão presentes crentes e descrentes; religiosos e irreligiosos. Dessa forma, vamos focalizar exclusivamente o assunto que nos interessa mais de perto que é compreender nosso papel, enquanto cristãos, na esfera pública. Para isso, vamos dividir em três dimensões essa inserção da igreja na esfera pública.

A primeira dimensão é a privativa, pois quando olhamos para a chamada de Abraão (conforme o texto preambulado), entendemos que a vocação e o chamado do cristão são particulares. Nesse sentido, Deus não chamou, primeiramente, a nação de Israel, mas a pessoa de Abraão, pois o encontro com Deus é particular, pessoal e subjetivo, e acontece no nível do privativo e não do coletivo. Quando analisamos o chamamento de Moisés, lembramo-nos do texto de Êxodo: “Vendo o Senhor que ele se voltava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui!” (Êxodo 3. 4). Assim, mais uma vez, percebemos que Deus começa sua ação missionária na sociedade a partir do indivíduo.

Deduzimos dessa dimensão privativa da vocação cristã que não é possível ação social significativa (participação na esfera pública) se não houver verdadeira experiência privativa com Deus. O Novo Testamento deixa claro essa proposta, quando estabelece que a vida cristã começa com a conversão do indivíduo e, somente depois, com a missão. O próprio Jesus disse que “a obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado” (Jo. 6. 29). Outra vez, Durkheim oferece sua compreensão sociológica quando assevera que “o fiel que comungou com o seu deus não é apenas um homem que vê verdades novas que o incrédulo ignora: é um homem que pode mais. Ele sente em si força maior para suportar as dificuldades da existência e para vencê-las” (Durkheim, 2008).

A segunda dimensão é a congregacional, que é o ambiente onde a experiência religiosa do cristão precisa ser mediada e estruturada por uma boa educação religiosa. Não podemos esquecer que Jesus gastou três anos e meio, ininterruptos, nesse processo. Assim, a formação cristã relevante e segura acontece somente no ambiente congregacional, pois sabemos que a igreja cristã primitiva preparava os seus membros para a vida na comunidade, treinando e discipulando-os para demonstrarem um comportamento não somente religioso, mas ético na sociedade. O texto do livro de Atos afirma que esses cristãos “vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (Atos 2. 45 – 47).

Dessa perspectiva congregacional, concluímos que as nossas ações na esfera pública precisam ser formatadas no ambiente da igreja e não no ambiente da sociedade. Assim, o discurso que levaremos à esfera pública precisa ser construído num ambiente de instrução e educação religiosas, senão nossa abordagem na esfera pública não terá o respaldo de nossa comunidade religiosa.

A terceira dimensão é a comunitária, que diz respeito à sensibilidade que a igreja precisa ter com o seu entorno, percebendo as demandas mais urgentes da sociedade. Assim, a mensagem profética da igreja deve abranger os grupos sociais marginalizados – homossexuais, mulheres, pobres e crianças – não apenas combater o pecado, mas viabilizar caminhos para esses grupos oprimidos pelo modelo social dominante. Um dos textos mais interessantes, nessa perspectiva comunitária, é o de Atos 9. 36 – 39: “Havia em Jope uma discípula por nome Tabita, nome este que, traduzido, quer dizer Dorcas; era ela notável pelas boas obras e esmolas que fazia. Pedro atendeu e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no para o cenáculo; e todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas” (Atos 9. 36, 39).

Portanto, na dimensão comunitária, a igreja interpreta os clamores e gemidos da sociedade e proporciona uma leitura não somente religiosa, mas humanitária, considerando que o ser humano é o alvo mais elevado da mensagem cristã, independentemente do local ou da circunstância sócio-cultural em que está inserido aquele indivíduo.

Feitas essas observações sobre as três dimensões da nossa religiosidade, consideramos oportuno reforçar a importância que a religião cristã tem na história da humanidade, especialmente na civilização ocidental. Não devemos permanecer distantes e indiferentes às possibilidades de uma inserção na esfera pública que seja saudável, pacífica, piedosa e produtiva. Assim, nossa contribuição será tanto maior se soubermos respeitar os diversos segmentos sociais, podendo eventualmente discordar e questionar o modus vivendi da sociedade, mas jamais abandoná-la à própria sorte. Por fim, não devemos nos esquecer da convocação de Abraão, que foi comissionado para abençoar todas as famílias da terra (conforme o texto de Gn. 12. 4.).
Glória a Deus!

Pastor José Roberto Limas da Silva