O Topocídio e o esvaziamento das memórias afetivas

José Roberto Limas da Silva**

A necessidade de pensar sobre o estilo de vida contemporâneo, com sua agenda estressante e demandas urgentes, exige que reconsideremos alguns conceitos estabelecidos. Nesse sentido, a relação entre lugar e tempo tem sido totalmente reformulada na nossa prática cotidiana, entretanto, ainda nos valemos de uma compreensão teórica ultrapassada acerca dessa relação. Assim, quando se busca estabelecer uma teia de relações entre o lugar, o tempo e o ser humano, faz-se necessário admitir que o ser humano “somente pode estabelecer raízes profundas em uma pequena parte do mundo” (TUAN, 1980), que chamamos de lugar. Esse espaço sempre evocará a subjetividade do indivíduo, pois desperta sentimentos, emoções e memórias que estão adormecidos em seu interior. Percebe-se, frequentemente, que “a esperança das pessoas gira em torno de determinados lugares carregados de histórias e símbolos” (BONNEMAISON, 2002).

Entrementes, a recente reclusão social exigida pelo agravamento da pandemia da COVID-19 realçou algumas anomalias que estavam presentes na vida comunitária, mas que, efetivamente, não eram pensadas nem dimensionadas. Uma dessas anomalias que se percebeu foi o processo de esvaziamento de significado dos lugares afetivos, que denominamos, aqui, de morte dos lugares afetivos (topocídio afetivo).

Dessa forma, antes de adentrar a discussão sobre o fenômeno recente da morte dos lugares afetivos, deve-se, primeiramente, caracterizar a relação espaço, tempo e ser humano, partindo da categoria geográfica, chamada de lugar, que é o espaço das vivências. Assim sendo, a análise da categoria lugar, aparentemente, só apresenta viabilidade a partir do indivíduo, pois essa espacialidade é estruturada no encontro com este. Não obstante, isso não deve pressupor que os lugares são criações do sujeito, porém devem ser considerados como espaços locais que “possuem características próprias” (ROCHA, 2008), ou seja, que têm existência real, seja no plano material, seja no cultural. Evidentemente que o lugar tem existência própria, seja o lar, a rua, o bairro, a cidade, mas estes lugares só ganham cores, sentido e significado a partir das relações de afeto que o sujeito trava com essa espacialidade, ou seja, seus sentimentos pintam e dão o colorido àquele espaço.

Assim, a descoberta do sujeito, das coisas e dos demais seres parte da categoria chamada lugar, porque é essa espacialidade recortada que organiza e dimensiona o espaço, à medida que ela (o lugar) representa uma fragmentação desse espaço. Dessa maneira, a ideia de que podemos compreender o mundo e as coisas abstraindo os objetos do espaço, ignorando seu lócus, suas relações e suas essências individuais, tem demonstrado ser um grande equívoco, pois quando falamos de lugares, estamos falando da significação do espaço para cada indivíduo, por isso não parece possível explicar o espaço, a vida, os objetos e as relações se não a partir do indivíduo.

Não obstante a preeminência do lugar na compreensão do ser humano, não deve ser esquecido que o espaço (lugar) é estruturado e conhecido na escala do tempo, pois a espacialidade se manifesta em dado tempo. Nesse sentido, a agenda humana só é possível em certo lugar, dentro de um período de tempo e, por isso, a atividade humana é refém do lugar e do tempo, pois, nossas relações são mediadas ininterruptamente por essas duas instâncias (lugar e tempo).

Diante disso, o indivíduo está continuamente sujeito ao tempo e ao espaço, ademais a ideia de uma topofilia (topos e filos, na língua grega, significam respectivamente, lugar e amor/afeição) só é possível a partir do lugar, pois ela (a topofilia) exige um “tamanho compacto, reduzido às necessidades biológicas do homem e as capacidades limitadas dos sentidos” (TUAN, 1980), uma vez que os seres humanos, normalmente, só estabelecem relações de afeto com aquilo que vivenciam e experienciam.

*Este texto é parte de um artigo apresentado no CAEduca 2021, cujo título é: “O Topocídio e o esvaziamento das memórias afetivas: agravamentos e repercussões em face da pandemia da COVID-19”.
**Mestre em Ciências da Religião e doutorando em Teologia pela EST, bolsista do CAPES/PROSUC.