O que a Igreja e a Sociedade esperam do Obreiro Cristão?

 O que a Igreja e a Sociedade esperam do Obreiro Cristão?

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2. 15).

Inicialmente, precisamos dizer que, atualmente, o papel dos líderes religiosos (pastores, pastoras, bispos, bispas, apóstolos, presbíteros etc) na sociedade brasileira difere bastante da primeira, segunda e terceira geração de obreiros da igreja evangélica brasileira. Sabemos que os primeiros obreiros pertenciam à igreja de imigração (Luteranos principalmente), a segunda geração é a de líderes pertencentes às igrejas de missão (Metodistas, Batistas, Presbiterianos e Congregacionais) e a terceira geração é a de Pentecostais e Neo-Pentecostais.

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Sendo assim, a igreja de imigração (chamada também de étnica) estava preocupada basicamente com a comunidade de imigrantes e tinha uma mensagem evangélica direcionada somente a esse grupo (estrangeiros alemães e ingleses), enquanto a segunda onda protestante, chamada de missionária, estava preocupada em ganhar almas e se contrapor à doutrina católica (religião majoritária, até então). Já a terceira geração de protestantes (Pentecostais e Neo-Pentecostais) estava voltada para a revitalização espiritual das igrejas históricas.

Feita essa brevíssima recensão histórica, percebemos que cada momento da história demandou competências e habilidades dos servos de Deus que estavam servindo a Sua igreja. Nesse sentido, acreditamos que o texto em epígrafe (2 Timóteo 2. 15) nos ajuda muito no posicionamento ou reposicionamento como líderes da igreja evangélica brasileira, nesse momento da história. Dessa forma, percebemos que esse texto apresenta algumas exigências para que nosso ministério corresponda às expectativas de Deus e da sociedade.

O texto apresenta, na sua construção frasal, uma perspectiva de exigências, às quais precisamos atender. Assim sendo, a primeira é em relação a Deus, ou seja, precisamos nos submeter à aprovação Dele, porque a nossa vocação e missão precisa da chancela do céu. Dessa forma, a primeira etapa é eliminatória, ou seja, se nós

não tivermos um testemunho de Deus a nosso respeito, não reuniremos as condições para ingressar no ministério, por isso Paulo começa o texto dizendo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado (…)”.

Tal perspectiva é respaldada pela Bíblia, pois os obreiros chamados por Deus, no passado, recebiam uma convocação pessoal, como foi o caso dos profetas, dos discípulos e mais especialmente Paulo, que é chamado e comissionado pelo Cristo ressurrecto, como deixa antever no livro de Atos: “E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões. Então, eu perguntei: Quem és tu, Senhor? Ao que o Senhor respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda, livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio” (Atos 26. 14 – 17).

A necessidade de sermos chamados, vocacionados e enviados por Deus é uma exigência que não pode deixar de ser cumprida, pois o ponto de partida para o obreiro cristão não é o que ele diz a respeito de Deus, mas o que Deus diz a seu respeito, assim como somos informados acerca de Davi, no livro de Samuel: “E, tendo tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando testemunho, disse: Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade” (Atos 13. 22).

Portanto, nosso ministério na igreja do Senhor não é primeiramente baseado nas necessidades da igreja local, nem na nossa experiência mística, mas é fundamentado num chamado que vem diretamente de Deus. Diante disso, a dignidade de nosso ministério não é o resultado de nossos esforços, mas de uma vocação celestial, pois a Bíblia insiste em dizer que “ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão” (Hebreus 5. 4).

Feitas as mínimas considerações sobre essa primeira exigência, vamos à segunda. O texto pré-mencionado de 2 Timóteo 2. 15 nos informa que, além da necessidade de sermos aprovados por Deus, não devemos apresentar qualquer situação que seja motivo de vergonha ou desonra. Paulo diz, textualmente, que devemos ser obreiros que não tenham do que se envergonhar. Essa segunda exigência diz respeito a nós próprios, ou seja, nós precisamos aprovar nosso ministério diante da nossa consciência.

A nossa consciência não pode nos acusar senão seremos reféns da dúvida e da insegurança, sentimentos que nos impedem de desenvolver um ministério saudável e eficaz. O diabo, nosso adversário, está sempre em busca desse ambiente de dúvidas, incertezas, inseguranças e medos. Nesse sentido, nós precisamos respeitar nossa consciência, pois ela precisa ser nossa aliada, como Paulo nos orienta: “Porque de nada me argúi a consciência” (2 Co. 4. 4).

A nossa consciência é um tribunal que precisa ser respeitado, ouvido e atendido, pois sem uma consciência limpa e tranquila, nosso ministério vira uma farsa religiosa. Para que tenhamos saúde psicológica e emocional, Paulo nos ensina que devemos nos esforçar para “ter sempre consciência pura diante de Deus e dos homens (Atos 24. 16).

Caminhando para o término dessa reflexão, o texto nos permite enxergar uma terceira exigência na vida do obreiro do Senhor. Trata-se da nossa aprovação pela sociedade. As duas primeiras exigências diziam respeito ao nosso relacionamento com Deus e com nossa própria subjetividade, mas a terceira está ligada ao que os outros pensam a nosso respeito. Quando o texto de 2 Timóteo 2. 15 fala da necessidade de manejar bem a Palavra da verdade, está informando sobre o tipo de apreciação que nós recebemos da comunidade religiosa e não religiosa, em face do nosso manejo das Escrituras.

Muitas vezes, esquecemo-nos que a pregação do evangelho não é uma atividade exclusiva do templo, mas uma atividade, também, pública. A pregação do obreiro tem duas dimensões, a congregacional e a da esfera pública e, nesse sentido, precisamos nos expor, também, à apreciação dos não crentes, como era comum no ministério de Paulo, quando pregava na praça, no mercado, no teatro, como nos permite vislumbrar o texto abaixo: “Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade. Por isso, dissertava na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos; também na praça, todos os dias, entre os que se encontravam ali. E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos deuses; pois pregava a Jesus e a ressurreição. Então, tomando-o consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos saber que nova doutrina é essa que

ensinas? Posto que nos trazes aos ouvidos coisas estranhas, queremos saber o que vem a ser isso” (Atos 17. 16 – 20).

Assim, essa terceira exigência demonstra o quanto somos dependentes das pessoas que estão no nosso entorno social. Essa é uma questão que não pode ser ignorada pelo obreiro, pois “é necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo” (I Timóteo 3. 7). Assim sendo, a aprovação do nosso ministério depende não somente de Deus e da nossa consciência, mas da nossa comunidade. Não podemos esquecer que somos líderes da igreja para Deus, para nós mesmos e para as pessoas que estão ao nosso lado. Nenhum desses elementos deve ser ignorado. Que o nosso Deus nos ajude a atender essas três exigências e honrá-lo em nossos ministérios!