Mateus, o evangelho dos periféricos

 Mateus, o evangelho dos periféricos

José Roberto Limas da Silva

O evangelho segundo Mateus é o que consegue dar mais visibilidade aos grupos sociais da Palestina, e que se revela mais inclusivo e mais conectado com a realidade política e social. O seu evangelho “tem um caráter mais austero do que o de Lucas” (VINCENT, 2012), por exemplo, mas consegue aliar o espírito criterioso da religião judaica à graça acolhedora de Jesus Cristo. Outro fator que gera empatia do evangelista Mateus com grupos marginalizados é a sua condição de Publicano, expondo-o seu sentimento de inadequação, agravado em face de “um evangelho escrito por um publicano dificilmente pareceria adaptado para alcançar justamente o povo a quem ele era dirigido” (VINCENT), que no caso era o judeu palestino, rigorosamente averso aos cobradores de impostos.

A sua inadequação, fruto de conflitos pessoais, alavanca e legitima sua posição de evangelista da inclusão, pois como escriba (oficial cartorial), lidava bem com as leis, mas como grupo social marginalizado (publicano) podia se condoer dos grupos periféricos da sociedade judaica. Sua posição paradoxal na vida social da Palestina lhe permitiu ouvir o discurso da elite rica e os gemidos dos excluídos. Os demais evangelistas estão atrelados a um sistema social ou religioso que não lhes permite tais leituras. Marcos é discípulo protegido e tutoriado pelo apóstolo Pedro. Tem família estável e piedosa (conforme Atos 12). Lucas é estrangeiro e não pode entender, nem vivenciar a vida social Palestinense. João vai escrever em Éfeso, numa conjuntura social grega, distanciada geográfica e culturalmente da Palestina. Somente Mateus vai escrever num contexto de paradoxos, envergando sua condição de pessoa rica e desprezada pela sociedade judaica.

O evangelho de Mateus não possui tom conciliatório ou conveniente. Ele escreve seu evangelho conforme se lhe apresenta as evidências internas do Velho Testamento, como se lhe afigura o Messias e como sente a comunidade ao seu redor. Ele não é um historiador, nem um cronista, mas simplesmente uma pessoa que escreve de consciência tranquila e espírito humilde, conectado a sua realidade social. Ele não escreve assentado em um gabinete, mas inspirado por Deus, enxergando a realidade social, política e cultural de sua época. Para Mateus, Jesus Cristo é o Messias prometido no Velho Testamento, o Filho do Deus Vivo. Isto é a base de sua teologia. Nenhum dos evangelistas se posiciona de forma tão definitiva e comprometedora como Mateus. Neste sentido, Lucas vai registrar a confissão de Pedro a respeito de Jesus, como “o Cristo de Deus”, enquanto Marcos vai dizer “tu és o Cristo”, enquanto Mateus registra: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo”.

A teologia de Mateus é aberta e exposta aos paradoxos da vida social judaica. Ele não tem a intenção de conciliar, mas de denunciar as injustiças sociais e os desmandos da religião oficial. Seu evangelho navega perifericamente ao sistema estabelecido. Isto se percebe já no início do seu evangelho, quando inclui na genealogia de Jesus quatro mulheres, embora, “não se costumava incluir mulheres nas genealogias dos judeus”(PFEIFFER; HARRISSON, 1980), sendo que são citadas nominalmente (Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba). Isto já revela o caráter periférico e marginal do evangelho de Mateus, uma vez que o “status de mulher na Palestina no tempo de Ieshua era, sem dúvida alguma, de inferioridade” (SWIDLER, 1993).

Entretanto, no evangelho de Mateus, as mulheres são vistas, citadas e reconhecidas como seguidoras e apoiadoras do ministério de Jesus. No episódio da ressurreição, as mulheres só tem o protagonismo (no momento da crucificação e no anúncio da ressurreição) no evangelho de Mateus, sendo que nos demais evangelhos elas ocupam papel secundário. Veja a comparação dos textos!

a) No episódio da crucificação temos em Mateus 27. 55: “Estavam ali muitas mulheres, observando de longe; eram as que vinham seguindo a Jesus desde a Galileia, para o servirem”. Nesta passagem, somos informados que as mulheres seguiam Jesus desde a Galileia, servindo-o.  Já em Marcos 15:40: “Estavam também ali algumas mulheres, observando de longe; entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé”. Nesta passagem elas estão, apenas, observando, não diz se seguiam a Jesus e muito menos, se estavam servindo-o. Por fim, em Lucas 23:49: “Entretanto, todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas”. Nesta passagem, as mulheres são apenas coadjuvantes que seguiam Jesus.

b) No episódio do anúncio da ressurreição, em Marcos elas permanecem em silêncio e quando uma delas (Maria Madalena) anuncia, é imediatamente desacreditada. Em Lucas, o testemunho delas, também não é aceito pelos homens apóstolos. Somente em Mateus não há registro de descrédito à mensagem delas (Mateus 28. 8). Mateus não cita a rejeição do testemunho das mulheres, mas fala do encontro e da alegria que estas mulheres tiveram diante do Cristo ressurrecto.

Além destes fatos que demonstram o espírito tolerante, respeitoso e inclusivo de Mateus com as mulheres, podemos asseverar estatisticamente que no seu evangelho a palavra mulher é mais citada e incluída do que nos demais evangelhos. Vejamos então:  O evangelho de Mateus corresponde à 28,7% do texto dos evangelhos, enquanto o de Marcos abarca 18,3%, Lucas 31,1% e João 21,9%. Em Mateus temos 28 citações da palavra mulher, enquanto em Marcos tem 14, em Lucas 27 e João 21 citações.

Fica evidente que, apesar de Lucas ser o evangelho maior do novo testamento, ocupando quase um terço do texto evangélico (31%), Mateus é o texto que mais tem citações sobre a mulher, mesmo representando uma porcentagem menor (28%) que o texto de Lucas, que é o maior do novo testamento (conforme tabela acima). Marcos cita, apenas, 14 vezes a palavra mulher, no seu evangelho. João, também é mais econômico que Mateus, aludindo à palavra mulher, apenas, 21 vezes.

Mateus demonstra, também, em seu evangelho uma denúncia aos sistemas opressores e marginalizadores, reagindo nos limites da justiça e da retidão do Reino de Deus. A opressão e a corrupção do sistema político e religioso não são omitidas no episódio do suborno dos guardas romanos (conforme Mateus, capítulo vinte e oito, versos onze a quinze). Marcos e Lucas permanecem em silêncio. Ele questiona, também, com certa sutileza, a legalidade do Império Romano tributar a Palestina e, mais uma vez, Lucas e João não tocam no assunto, sequer. Somente Mateus demonstra certo inconformismo. As mazelas do sistema religioso judaico, também, não são poupadas por Mateus, que gasta um capítulo inteiro do seu livro para denunciar a hipocrisia do sistema religioso oficial (Mateus 23), enquanto Marcos gasta três versículos.

Por fim, o evangelho de Mateus é o único que ousa registrar o pré-anúncio de Jesus, transferindo o reino de Deus dos judeus para os gentios. Nenhum evangelista ousa tanto. Mateus entende que os Judeus perderam a preeminência no Reino (na parábola dos lavradores maus). Lucas e Marcos silenciam sobre isto, mesmo narrando a mesmíssima Parábola. Só nos resta, então, reconhecer que o evangelho de Mateus é o mais inclusivo das classes sociais marginalizadas (mulheres, publicanos, escravos, prostitutas, gentios), além de incorporar o viés profético de denúncia das injustiças sociais.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, João Ferreira. Bíblia Sagrada. 2ª Ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
PFEIFFER, Charles F.; HARRISSON, Everett F. Comentário Bíblico Moody. São Paulo: Imprensa Bíblica Regular, 1980.
SWIDLER, Leonard. Ieshua: Jesus histórico, cristologia, ecumenismo. São Paulo: Edições Paulinas, 1993. p. 100.
VINCENT, Marvin R. Estudo no vocabulário Grego do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. V. 01.