Inquérito aponta que Itair usou dinheiro do Cruzeiro para pagar dívida com Marcelo Oliveira e cobertura de R$ 6 milhões

 Inquérito aponta que Itair usou dinheiro do Cruzeiro para pagar dívida com Marcelo Oliveira e cobertura de R$ 6 milhões

Dirigente afirma não haver provas contra ele em investigação da Polícia Civil, que indica ainda que ex-vice do clube se beneficiou em venda de Mayke para pagar débito

A primeira parte das investigações da Polícia Civil, que indiciou sete pessoas (três ex-dirigentes do Cruzeiro e quatro empresários), concluiu que pelo menos três dívidas pessoais do ex-vice-presidente de futebol da Raposa, Itair Machado, foram pagas com o dinheiro do clube, a partir de negociações envolvendo atletas da agremiação

Uma das operações foi para pagar uma cobertura em um condomínio de luxo em Nova Lima, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. O imóvel é avaliado em R$ 6 milhões e pertence ao edifício Chatêau Morgaux, condomínio Bordeaux. Pelo menos uma parte do valor – R$ 3,7 milhões – foi quitada pelo empresário Cristiano Richard dos Santos Machado.

Richard teve relação com o Cruzeiro revelada pelo Fantástico em 26 de maio de 2019, quando o programa mostrou que o empresário do ramo de equipamento de proteção individual firmou contrato com o clube, acertando empréstimo de R$ 2 milhões.

Um mês depois, as partes firmaram novo acordo. Nele, o Cruzeiro afirmou não ter condições de pagar a quantia e disponibilizou parte dos direitos econômicos de 10 atletas, incluindo uma criança de 11 anos, na época.

– Em data aproximada, esse mesmo empresário realiza pagamento de R$ 3,7 milhões a uma construtora para pagar parte de apartamento a um então dirigente do Cruzeiro. O que eles tentaram alegar, em suas defesas, seria que o pagamento dos mais de R$ 3 milhões seria em decorrência de um contrato de mútuo, contrato esse que sequer possui data de pagamento ao ex-dirigente e garantias. O empresário, então, seria beneficiado com os direitos federativos dos jogadores – apontou o chefe da Divisão Especializada em Investigação de Fraudes, Domiciano Monteiro.

A Polícia Civil, no momento da divulgação do relatório de investigações, não revelou o nome dos envolvidos, mas a Globo apurou que outra dívida de Itair Machado, paga com dinheiro do Cruzeiro, é relativa a outro clube do qual ele fez parte: o Ipatinga, do Vale do Aço mineiro. O débito é referente ao também ex-técnico da Raposa, Marcelo Oliveira. Foi quitado em 2018, com dinheiro do pagamento de comissão da venda do lateral Mayke com o Palmeiras, em operação realizada em setembro daquele ano.

Dos R$ 800 mil pagos em duas parcelas (outubro e novembro de 2018) à empresa Jeo Rafah Sports, cujo sócio é filho do empresário Carlinhos Sabiá – a título de intermediação pela negociação de Mayke -, pouco mais de R$ 700 mil foram endereçados a Marcelo Oliveira, que tinha valor a receber do Ipatinga a título de verbas rescisórias por sua passagem em 2009. O clube mineiro era então administrado por Itair Machado e que virou também responsável pelo pagamento em ação do treinador na Justiça do Trabalho.

Marcelo nada tem a ver com os desvios cometidos, somente recebeu o valor da dívida com recursos do Cruzeiro, que não estava envolvido com o débito. Carlinhos não era representante de Mayke e nem era cadastrado como intermediário, na época, na CBF.

Na semana passada, a Polícia Civil comentou sobre o dinheiro do Cruzeiro utilizado para pagar dívida acumulada do Ipatinga e de Itair Machado.

– Esse valor foi utilizado por esse intermediário para pagar dívida particular de ex-dirigente investigado com antigo treinador do clube que ele dirigia.

Contratação de Bruno Silva

O mesmo teria acontecido na contratação do volante Bruno Silva pelo Cruzeiro. O empresário envolvido – não citado pelas autoridades, é Carlinhos Sabiá, agente do jogador – recebeu comissão e repassa parte do valor para Itair Machado sanar dívida pessoal com um profissional liberal.

– Empresário recebeu valores de comissão acima do valor de mercado. Esse mesmo empresário repassa uma parte dos valores que ele recebeu para pagamentos de dividas que ex-dirigente do Cruzeiro possuía com profissional liberal. Investigação mostra isso: pagamento acima de valor de mercado para empresário, que usa parte dos valores para quitar dívida de um então dirigente do Cruzeiro com profissional liberal – disse o chefe da divisão especializada, Domiciano Monteiro.

Relatório da Kroll, obtido pela Globo, mostra que o Cruzeiro se comprometeu a pagar R$ 1,2 milhão a Jeo Rafah Sports, a título de intermediação pela contratação de Bruno Silva – a primeira de R$ 750 mil, com vencimento em 29 de janeiro de 2018, e a segunda, de R$ 450 mil, 10 dias depois. A agilidade para o pagamento da comissão chamou a atenção.

– A gente chegou a essa conclusão através do depoimento do ex-diretor financeiro, da insistência e exigência do pagamento dessa comissão de uma maneira mais ágil. Empresário de futebol, também ouvido, deixou que os valores pagos são totalmente alheios ao mundo do futebol. Com as provas testemunhais, com o sigilo bancário demonstrando que, parte do valor pago dessa comissão, foi para pagamento de dívida de ex-dirigente, a gente entendeu que o ex-dirigente praticou apropriação indébita de valores – afirmou o delegado que presidente o inquérito do Cruzeiro, o delegado Gustavo Xavier.

Há o registro de pagamento das duas parcelas com entrega de notas fiscais em ambas. Em valores líquidos, foram pagos R$ 1.146.000 a Jeo Rafah, de acordo com o relatório da Kroll.

Itair Machado, Sérgio Nonato (ex-diretor geral do clube) e Wagner Pires de Sá (ex-presidente) foram indiciados, na última semana, pelos crimes de apropriação indébita, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e associação criminosa. O Ministério Público de Minas Gerais analisa o inquérito para avaliar se oferece ou não denúncia.