Como se constrói uma sociedade indiferente?

“O rei e Hamã se assentaram a beber, mas a cidade de Susã estava perplexa” (Ester 3. 15b).

José Roberto Limas da Silva*

Júlia Pires Limas**

O texto preambulado nos faz pensar no distanciamento afetivo que alguns membros da sociedade têm em relação à coletividade em geral. Não obstante, esse afastamento das realidades abrangentes parece ser uma característica do indivíduo contemporâneo, que é movido pela ideia de felicidade baseada no consumo. A pesquisadora Camila da Silva Carvalho, na sua dissertação de mestrado sobre a relação consumo e felicidade, reconhece que temos, atualmente, uma sociedade composta por indivíduos que “forjam suas identidades em um mundo de imagens, sonhos e prazeres buscando novas experiências estéticas e emocionais, diferenciação e singularidade através do consumo” (CARVALHO, 2010).

Por conseguinte, as pessoas começam a enxergar no consumo a possibilidade de felicidade, gerando um ambiente de demandas contínuas por bens e impactando a sociedade com sentimentos de competição e opressão dos grupos sociais que não conseguem ascender a esse mercado de consumo. Dessa forma, e considerando o texto bíblico pré-mencionado (Ester 3. 15b), acontece exatamente assim: Na casa do rei (metaforicamente representado pelos poucos indivíduos abastados), há fartura e festa, enquanto na casa dos cidadãos comuns há sofrimento e privações.

Nesse sentido, é preciso que esse quadro sociológico seja ampliado, observando a presença de uma cultura subliminar por detrás dessa ideia de que o consumo é a garantia da felicidade. Em primeiro plano, temos a sedução da indústria e do mercado de bens e produtos. Em outras palavras, o ambiente produtivo e comercial sempre vai em busca do capital que está no bolso dos consumidores. Tudo bem! Não podemos ignorar que as coisas, de fato, são assim. Sem embargo, precisamos analisar também a predisposição do indivíduo que aceita os apelos da propaganda.

Feita essa problematização, percebemos que a natureza egocêntrica e gananciosa do ser humano é o agente desencadeador do processo de construção de uma imagem de felicidade baseada no consumo. O mercado, apenas, reconhece essa avidez para o consumo, oferecendo o que o indivíduo tanto deseja. Por isso, individualmente, produzimos uma sociedade indiferente e egocêntrica à medida que legitimamos a ideia de felicidade a partir do consumo. Logo, a cultura consumista não está, somente, no palácio do rei ou nas mansões dos donos do capital, mas, principalmente, escondida no fundo de nosso coração.

Portanto, reconhecemos que somos os arquitetos dessa sociedade indiferente, mas podemos ser também os construtores de uma sociedade solidária, empática e misericordiosa. Para isso, precisamos sair de nossos “palácios reais” e assentarmos na praça pública e contemplarmos os pobres, andrajosos e carentes que frequentam nossas ruas, bairros e cidades. Por fim, é sempre oportuno lembrarmo-nos que a Bíblia nos ensina a alegrar com os que se alegram, mas também chorar com os que choram (Rm. 12. 15). Assim, para isso acontecer, é preciso que estejamos nos mesmos espaços que as pessoas comuns estão. Eis aí nosso desafio!

*Doutorando em Teologia (Faculdades EST). **Graduanda em Direito (UNIMONTES).