A pauta ecológica e a Bíblia Cristã: Possíveis Relações

JOSÉ ROBERTO LIMAS DA SILVA*

“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas (…). O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor” (Isaías 65. 17, 25).

Atualmente, a temática da preservação ambiental está sendo discutida em todas as esferas da vida. Há a urgente necessidade de considerar as mudanças climáticas, passando pela poluição da água e do ar, bem como a devastação das florestas e a extinção de espécies animais e vegetais. O texto bíblico em epígrafe fala da restauração planetária que sucederá ao colapsamento da natureza. Será que podemos estabelecer algumas relações entre esses eventos?

Inicialmente, podemos afirmar que as Escrituras Sagradas constituem o homem como guardião e protetor da natureza. Somos informados que “o Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2. 15). Outra questão importante é a forma como a terra foi concebida, mostrando claramente a mentalidade ecológica da sua criação, quando não havia predação alimentar entre humanos e animais, nem entre animais e animais, uma vez que a dieta era totalmente vegetariana, senão vejamos: “E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento. E a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento” (Gênesis 1. 29, 30).

O início do desequilíbrio ambiental do planeta Terra se dá a partir do momento que o homem peca e assume um comportamento destrutivo em relação a si mesmo e ao restante da natureza, afastando-se do seu Criador. Diante desse fato, a proposta de restauração do planeta começa a ser desenhada quando Deus promete enviar seu filho (Gênesis 3. 15). Podemos dizer que o primeiro ecologista é o próprio Criador da natureza, enquanto o primeiro perturbador do ecossistema foi nosso pai Adão que, em maior ou menor escala, temos imitado.

Voltando às graves questões ecológicas da contemporaneidade, na virada do milênio, fomos impactados com uma perspectiva bastante sombria. A Organização das Nações Unidas (ONU), a partir de um relatório de vários pesquisadores espalhados no mundo inteiro, chegou à conclusão de que “nos últimos 50 anos, o homem modificou os ecossistemas mais rápida e extensivamente que em qualquer intervalo de tempo equivalente na história da humanidade, na maioria das vezes para suprir rapidamente a crescente demanda por alimentos, água potável, madeira, fibras e combustível. Isso acarretou uma perda substancial e, em grande medida, irreversível, para a diversidade da vida no planeta” (https://www.rbma.org.br/, 2001).

A perspectiva bíblica é a mesma desse relatório, ao nos permitir perceber que o quadro de degradação dos ecossistemas aponta para gemidos cada vez mais agudos da natureza, que tem sido visibilizados através de recorrentes terremotos, maremotos, derretimento das calotas globais, poluição do ar, do solo e das águas. Nesse sentido, a Bíblia usa de uma linguagem prosopopeica para ilustrar o sofrimento da natureza: “Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Romanos 8. 22).

Sabemos que a tarefa de preservar o planeta é uma missão inglória porque entendemos que, em algum momento, a natureza irá colapsar definitivamente. Contudo, é preciso que adiemos o máximo que pudermos esse processo. Assim sendo, a preservação ambiental é a pauta social mais importante de nossos dias e a igreja cristã não pode fechar os olhos para a destruição sistemática, contínua e irrefreável da natureza. Segundo o relatório aqui citado (dados da ONU e do Banco Mundial), é admitida a real possibilidade de um colapso ambiental global até meados do século XXI, caso persistamos nesta jornada extrativista e destrutiva dos recursos naturais.

Por fim, enquanto seres humanos, não podemos ignorar nossa dependência ecossistêmica. Somos, no sentido natural, apenas mais um ser desse ecossistema e não o único. Ademais, Deus nos criou em harmonia e parceria com cada um desses seres e não temos o direito de expulsá-los ou destruí-los nesta terra que nos foi dada, mas também a eles. Cuidemos, pois, deste lindo jardim, enquanto essa responsabilidade estiver em nossas mãos!

*Pastor e Geógrafo.