A lógica de operação do mundo humano: as contradições da proposta desenvolvimentista

José Roberto Limas da Silva
Júlia Pires Limas

A lógica racionalizante de nosso projeto civilizacional apresenta paradoxidades insuperáveis, especialmente após os desdobramentos da revolução industrial e da recente corrida tecnológica. Nossos processos produtivos colocaram os recursos naturais à beira do colapsamento, sobretudo no campo da produção de alimentos, que são cada vez mais demandados num mundo superpopuloso e, ainda, agravados pelo excesso de consumo dos países, chamados desenvolvidos.

O conceito de progresso e desenvolvimento, dentro de uma lógica racional-iluminista, ainda se perpetua, sendo que “em nenhum momento pararam para analisar os riscos do crescimento, muito embora seus primeiros sinais já fossem evidentes cá e lá: a poluição, a destruição do meio ambiente, o inferno da metrópole, a expansão armamentista” (ALVES, 1996). Dentro desse modelo desenvolvimentista, a qualidade de vida é entendida como resultado do progresso econômico, ou seja, quanto mais atividade produtiva, maior desenvolvimento social. Não obstante, os processos produtivos sempre impactaram o ambiente natural, pois a matéria-prima é retirada da natureza e transformada em alimentos, produtos, bens etc. A lógica é sempre a da extração do recurso subsistente, sendo que muitos deles não são renováveis.

Além dos processos produtivos e industriais removerem, quase sempre, de forma definitiva os recursos da natureza, esses processos produzem resíduos que não são incorporados à vida orgânica. O maior exemplo desses resíduos são as embalagens plásticas que levarão milênios para serem decompostas pela natureza e reincorporadas ao material orgânico. Isso posto, acreditamos que não basta denunciarmos essa “contraditória racionalidade de progresso” como ferramenta de promoção do bem-estar social, mas devemos propor soluções para não despencarmos num colapsamento ecológico e social. Partindo de uma perspectiva sócio-educativa, temos as seguintes propostas :

a- Princípio da interdependência: A alma das relações sociais deve ser a interdependência que os sujeitos possuem entre si na sociedade. No meio ambiente, “a interdependência — a dependência mútua de todos os processos vitais dos organismos — é a natureza de todas as relações ecológicas” (CAPRA, 2000, p. 231). Em suma, o comportamento de cada organismo afeta toda a rede ecossistêmica e, assim, podemos dizer que o sucesso da comunidade depende do sucesso de cada membro;
b- Princípio da natureza cíclica dos processos: Os processos ecossistêmicos são cíclicos, ou seja, a natureza reaproveita seus resíduos, enquanto os processos industriais e comerciais são lineares e não reciclam os materiais descartados. Portanto, “os padrões sustentáveis de produção e de consumo precisam ser cíclicos, imitando os processos cíclicos da natureza” (CAPRA, 2000, p. 232).
c- Princípio da parceria: A ideia de se produzir de forma cooperativa é totalmente desejável dentro de uma comunidade sustentável. Dessa forma, o sistema é mantido por aquilo que cada organismo produz, enquanto o organismo se alimenta do que o sistema produz. Assim, “num ecossistema, os intercâmbios cíclicos de energia e de recursos são sustentados por uma cooperação generalizada” (CAPRA, 2000, p. 233). A parceria educa e humaniza as relações e freia a voracidade do mercado de consumo, regido pelo capital, uma vez que “a economia enfatiza a competição, a expansão e a dominação; a ecologia enfatiza a cooperação, a conservação e a parceria” (CAPRA, 2000, p. 234).
d- O princípio da flexibilidade e da resiliência: Dado a sua dinamicidade, o sistema convive com muitas variáveis e, sendo assim, sobrevive e se recupera justamente por ser flexível e resiliente. “Todas as flutuações ecológicas ocorrem entre limites de tolerância. Há sempre o perigo de que todo o sistema entre em colapso quando uma flutuação ultrapassar esses limites e o sistema não consiga mais compensá-la. O mesmo é verdadeiro para as comunidades humanas” (CAPRA, 2000, p. 234). Pensando na educação, sabemos que atitudes pedagógicas inflexíveis matam processos educacionais e sacrificam indivíduos/discentes, pois é a flexibilidade que permite ao sistema suportar as perturbações e não entrar em colapso.
e- O princípio da diversidade: Frequentemente nos deparamos com as contradições e os paradoxos da vida, não obstante, tais desafios são decorrentes da vitalidade do ambiente em que estamos inseridos. A diversidade carrega consigo essa pluralidade de ideias, vivências e expectativas e, portanto, quanto mais diversificada for a rede de relacionamentos, mais complexo e vigoroso será o sistema. “Em outras palavras, quanto mais complexa for a rede, quanto mais complexo for o seu padrão de interconexões, mais elástica ela será” (CAPRA, 2000, p. 235), oferecendo soluções variadas e criativas para aquele ecossistema.

Feitas essas considerações, na forma de propostas sócio-educativas, e reconhecendo toda a sua pertinência em face de nossas comunidades solapadas pelo individualismo egocêntrico patrocinado por um modelo capitalista-consumista, podemos resumir as propostas aqui elencadas em um texto expresso na Bíblia Sagrada, que traduz essa visão sistêmica e colaborativa. Vejamos: “Desse modo não existe divisão no corpo, mas todas as suas partes têm o mesmo interesse umas pelas outras. Se uma parte do corpo sofre, todas as outras sofrem com ela. Se uma é elogiada, todas as outras se alegram com ela” (2 Coríntios 12. 25, 26). Portanto, resta-nos somente implementar essas propostas e desfrutarmos de um estilo de vida mais generoso e cooperativo.